Arte que vai além de um rosto bonito

THE NEW YORK TIMES

 

Nova York – Recentemente, em uma sexta-feira, o artista Kenny Scharf estava em seu estúdio, no Brooklyn: um espaço com dois andares, repleto de pinturas, telas, vasos enormes de plantas e um trapézio na parte de cima, e uma coleção fantasmagórica de objetos fluorescentes e uma mesa de DJ na parte de baixo, que ele chama de “Cosmic Cavern A-Go-Go”, ou “Caverna Cósmica da Pontinha”.

Ele havia saído com Chris Salgardo, presidente da Kiehl’s, companhia de produtos para a pele, com sede em Nova York. “Estou bem hidratado”, brincou Scharf, sem fôlego depois de uma rotina no trapézio.

Ali por perto estava um modelo de esqueleto em vermelho, chamado Sr. Ossos, que ele criou para uma iniciativa beneficente da Kiehl’s em maio, e uma caixa de rótulos para o Creme de Corps, um dos produtos mais populares da empresa, ambos esperando por sua assinatura. Os rótulos levavam reproduções da obra de Scharf “Globomundo”.

“Isso é a diversão de Kenny”, disse Salgardo, que usava uma camisa xadrez, jeans rasgados, botas de serralheiro e carteira com correntes penduradas. “O trabalho dele é construtivo, o que faz sentido para crianças.” Os potes de loção, junto com um brinquedo de 50 dólares chamado Squirt (uma versão miniatura da cabeça do Sr. Ossos) foram colocados à venda recentemente; os lucros serão revertidos para a RxArt, uma organização sem fins lucrativos que leva exibições de arte para instituições de saúde.

As belas-artes podem estar fora do alcance da maioria das pessoas, mas um número crescente de artistas como Scharf está fazendo parcerias com empresas de cosméticos com a finalidade de criarem embalagens colecionáveis e produtos com preços bem variados. Em 2010 e 2011, Jeff Koons também se uniu à Kiehl’s para fazer uma série de rótulos do Creme de Corps, e a marca usou o dinheiro da arte de Koon para comprar uma máquina de tomografia computadorizada para um hospital em Chicago. Cindy Sherman, Marilyn Minter e Richard Phillips desenharam produtos na faixa dos 20 dólares para a MAC.

A edição artística da Dior do frasco para a fragrância J’adore L’absolu, feita de vidro murano e desenhada por Jean-Michel Othoniel, com um preço “fino” para combinar (3.500 dólares), chegará às prateleiras das lojas exclusivas Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman em novembro.

E em 26 de dezembro, Davis Factor, um dos tataranetos de Max Factor e um dos fundadores, ao lado do irmão Dean, da companhia de cosméticos Smashbox, com sede em Los Angeles, irá lançar uma coleção de sombras, batons, gloss, blush e um delineador “caneta” chamado de “Love Me”, uma homenagem à marca registrada no trabalho do artista de rua Curtis Kulig.

“Eu nunca havia visto tanta criatividade em cosméticos vinda de tantos lados”, disse Factor. “Estou vendo companhias de cosméticos mais conservadoras e que normalmente não se arriscariam fazendo coisas bem criativas.”

Para empresas de maquiagem, as colaborações e parcerias são um meio de fazer com que seus produtos se destaquem nas prateleiras amontoadas do banheiro. Para os artistas, isso pode ser uma fonte de renda a mais.

Guillaume Jesel, vice presidente sênior de Publicidade Global da MAC, disse: “A sigla MAC quer dizer Maquiagem Arte e Cosméticos e tem raízes profundas na moda, na música e nas artes. Nós estreitamos esses laços através de colaborações para compor produtos autênticos, que seguem um modelo de licenciamento de curto prazo antes de serem revelados ao público.”

Além da maior exposição de seu nome e de seu trabalho, Scharf disse que não estava sendo remunerado pela Kiehl’s. “Gosto de fazer projetos divertidos”, explicou. “Eu abraço o mercado de massa. Eu me deparei com uma resistência a esse mercado nos anos 80 e fiquei surpreso, porque eu achava que Warhol já tinha feito isso nos anos 60. Mais uma vez, o mercado de massa parece finalmente ter sido aceito.”

De fato, o espírito de Warhol, já visto em frascos de perfume no passado, está vivo no mundo dos cosméticos coloridos. Durante o outono, a NARS divulgará uma linha extensa de maquiagens criada em parceria com a Fundação Andy Warhol para as Artes Visuais, incluindo uma paleta de sombras, criada a partir do autorretrato do artista (disponível nas lojas em 1 de novembro, por 55 dólares). “Há uma conexão incrivelmente forte entre a maquiagem e a arte”, diz François Nars, fundador da NARS. “Pintores trabalham sobre telas ou esculturas, mas nós colorimos milhões de rostos. Acho que um rosto pode ser, de certo modo, uma obra de arte.”

Nars apontou para os retratos saturados de Warhol. “Andy era uma pessoa muito obcecada por maquiagem”, comentou, e com um batom ou uma sombra, “você pode transmitir, através do seu rosto, suas emoções, seu senso de cores e de moda. Cindy Sherman é um exemplo incrível.”

De fato, o corpo pode ser a última palavra em telas para alguns artistas que se integram a seus trabalhos. Mas Nars disse que também se inspirou em formas tradicionais, como retratos fotográficos. “Eu estaria completamente perdido se não pudesse fotografar”, revela. “Seria um desperdício.”

Ele citou alguns pintores como fonte de inspiração para suas cores, incluindo Picasso e Matisse. Ele criou a sombra fosca Outremer (24 dólares) inspirada no famoso azul de Yves Klein, e o trio de sombras Okinawa (45 dólares) foi um tributo a Mark Rothko. “Tenho alguns livros do Rothko e eu sempre observo as combinações que são feitas em suas pinturas”, contou Nars. “Elas quase se parecem com uma paleta de maquiagem.”

Na era do Instagram e do Pinterest, que permite que qualquer um crie e troque imagens elaboradas em um ritmo extraordinário, faria sentido, talvez, que a linha que divide as belas-artes e arte de maquiar esteja ficando “esfumaçada”.

Grandes corporações também estão na jogada. A Sephora tem colocado arte em lojas selecionadas, como a escultura “Flamenco Tornado” de E.V. Day, na loja que fica no Meatpacking District. “O consumidor se inspira muito na arte e é direcionado por Katy Perry, Lady Gaga ou Grimes, que são as celebridades mais influentes”, explica Lina Kutsovskaya, vice-presidente e diretora executiva de criação do varejo. “Com seus cabelos e maquiagem e o jeito como se vestem, eles são os ‘fora da lei’ – nós gostamos dessa ousadia – e a tecnologia deu a esses oprimidos um espaço gigantesco. Arte virou coisa do dia a dia.”

A empresa apresentou uma coleção com o ilustrador francês Izak Zenou e produziu uma exibição solo chamada “New American Beauty” (Nova Beleza Americana), para a tatuadora Kat Von D, que começou na Art Basel Miami em dezembro.

“Por eu ter ficado famosa com o programa sobre tatuagens, as pessoas acham que isso é tudo o que eu faço”, disse Von D, que fazia parte do programa “L.A. Ink” e é parceira da Sephora em uma linha de maquiagem desde 2008. “É apenas um dos meus meios. Minha avó fazia pintura a óleo. Eu desenho e pinto desde que era criança.”

Von D pontuou que belas-artes, comércio e adornos pessoais têm se misturado na cultura. “Se você olhar para Salvador Dali, ele fez batons, móveis, projetos de móveis e acessórios para os cabelos”, explicou ela. “Eu costuma ser muito autocrítica porque eu odiava os tatuadores que diziam que eu era só fachada. Tudo que estou tentando fazer é criar.”

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